Peço-te desculpa pelo meu cão
te ter comido as provas de aferição
com que ias treinar os teus alunos,
no fundo é bom cão, mas completamente doido, eu sei,
ele bem tenta, mas não consegue evitar fazer asneiras.
Peço-te desculpa por te ter partido
a tua caneca preferida,
sou um pouco desastrado, mas vês,
não me parece que isso seja motivo
para teres feito a mala e partido
dessa maneira tão repentina,
quase atroz,
e eu ainda com a cafeteira ao lume
e o pão na torradeira a cheirar a esturro
e o bater da nossa porta
que eu pensei ter sido o vento
afinal eras tu
e eu com meia laranja em cada mão
a olhar para ti pela janela e para o espremedor
já meio cheio de sumo
a sentir-me hoje ainda um idiota
por continuar a pôr a mesa em frente a mim
num lugar tão vazio
à tua espera há tanto tempo,
enquanto o meu cão olha para mim
com cara de culpado,
pobre cão abandonado,
pobre cão arrependido.
O meu cão, arrependido