Depois da minha morte
num grito virado ao nada
talvez cheguem à conclusão que eu fosse
apenas um vagabundo do coração,
um grifo dos afectos,
a vaguear de peito em peito
sem encontrar o tal local
onde fizesse casa.
Quando poisei no teu e
me deste asilo,
fiz em ti o meu ninho
e o lar era quente e seguro
mas talvez tardio, fugidio.
Talvez o tempo nos pregasse uma partida
e fosse tarde de mais para evitar o
sono
e o cansaço das mudanças
e andanças de diástole em diástole
desalojado, quem sabe,
pelas próprias sístoles do meu eco.
Talvez, depois, no corpo dormindo
já não dormente,
caiam gotas do seu sal
e abanando a cabeça
os amados não amantes
consternados, pais e filhos,
amigos e observantes,
pensem no nada virados ao mar
sem saberem por que motivo
ali jazia um coração
sempre tão cheio, mas tão distante,
assustadiço, quebradiço
e no teu ninho
o calor final, afinal,
tão procurado,
tão caseiro, talvez tardio.