Nesta cidade
um grito
ao longe (?) não identificado
e todos os ares
sem aviso no carbono respirado
me lembram algo de que não me recordo
exactamente.
Alguém se inquieta dentro de mim.
Alguém tenta comunicar dentro de mim
através das montras
e das gentes,
do burburinho
na confusão de mais um dia anónimo
no seu seio.
Nesta cidade onde já demos as mãos
alguém se inquieta dentro de mim.
No cinzento das paredes
amantes adolescentes declaram-se
num inglês deficiente
em que ficamos todos a saber
que a Ana lobes o Freddy
e que a Tânia faz mamadas
com número de telefone a convidar
e na merda das pombas
no chão,
espalhado fica o seu futuro,
decadente,
talvez até violento, violentíssimo demais
nos fatos de treino de domingo
e cus enormes em cuecas de fio dental
a quererem fugir e matar alguém
a apelar ao vómito dos descuidados olhares
e dos palavrões em direcção aos filhos
impacientes já caídos e aprisionados nesse ciclo
de ignobilidade ressabiada pela própria vida
que lhes passa ao lado
em tristes vozes malfadadas.
Nesta cidade,
um grito,
onde já andámos de mãos dadas.
Naquela tasca da Ribeira
onde até cães vadios tinham refúgio,
comemos bacalhau à moda da casa
e um verde branco à pressão
que arrepiava os cabelos de um imberbe
e pescadores de camisas grossas de fazenda
e calças porcas
de cigarros mata-ratos numa barba
amarelecida
olhavam-te para as mamas
com tesão
e eu sorria
na sua aprovação gestual
de quem olha para mim
cabrão de sorte
e os teus olhos azuis,
esse sorriso,
na minha exclusividade
a minha exclusividade
a minha exclusividade
desse olhar, do teu sorriso,
das tuas mamas, do teu corpo,
do teu amor
quase divino
que me desperta
nesta cidade,
no seu seio e
em todo o lado,
no burburinho,
nas montras,
nas vielas,
talvez ao longe,
o meu próprio grito.
Nesta cidade, um grito