Hoje, nem que todas
as cores ganhassem vida
eu deixaria que o cinzento
se perdesse desse lugar.
O ruído de um comboio
rasga a ferrugem sobre o ferro
e no teu reflexo,
os veios duros de uma vida
igualmente dura
e meio ida
um subsistema
meio abalado
meio perdido
mal compensado
e tu,
tu que um dia foste tudo para mim
ainda o és,
apesar da tua irritação sem razão
e da tua menopausa,
esses olhos cinzentos
de quem ainda me ama
mas não sabe bem como perdeu
o saber amar,
a morte da família,
já não me resta mais ninguém
— mas mãe,
mãe,
o meu pulsar por ti será eterno,
tens marido e filhos e netos
que te amam
e te querem de volta como eras,
a tua beleza de modelo,
a elegância e
o saber estar que ainda manténs,
mas o sorriso,
a alegria,
o brilho antigo dos teus olhos...

 

Nem que todas as cores ganhassem vida