Naquele quarto alugado  

Naquele quarto alugado

acusavas-me a responsabilidade de,

por uma cláusula qualquer de um contrato

que não assinei, ser propriedade tua.

Gemias ainda em resquícios

e vagueavam já os meus olhos em direcção a Sul

a lembrar-me dos meus livros, dos meus discos

e dos amigos que não partilharia contigo.

“Não é aqui que eu moro” e tu parva a constatar

a independência em espiral que te traía

em direcção ao tecto, a um rumor

e à ilegalidade da minha quebra subtil,

repentina, eficaz. Deverias ter sentido a fuga

na opacidade da minha vontade evasiva.

Nunca foi desprezo: só a ausência

de caminhos novos a traçar.

Naquele quarto alugado

acordavam os meus poros

sem ternura

aos poucos.