Lembramos os amigos idos

Lembramos os amigos idos em Verões passados,
à força de facas, pílulas ou pedais
repousando por momentos sob símbolos inúteis
não pedidos ou adorados.
Lembramos os sorrisos dos amigos idos,
sabendo-os agora
pelas árvores, na relva e em qualquer fruto
e os seus risos pelo campo,
dando cor à terra e não à pedra,
os seus risos cor de água corrente,
aos nossos olhos que os recordam com tristeza.
Lembramos os amigos idos e o seu toque sincero
sem retorno vale o álcool, mas o verde à nossa volta
sobre as pedras e os muros, um verde-vivo gritante
percorre matéria morta em silentes vocativos.
Lembramos os idos ainda vivos nos neurónios e
artérias da cidade mais vazia e com os braços em cada tronco
fora dela matamos a saudade dessa ausência.
Amamos os amigos vivos com o exemplo dos idos
que respiram em solo fértil e pelas folhas, nos seus veios,
desenhamos os seus nomes.