O anormal era louco
e vivia sozinho no meio de muita gente.
Ninguém lhe bebia água da fonte
apesar de pura e cristalina.
O anormal já fora quase normal e até
tratamentos lhe fizeram e tentaram aliená-lo
a todo o custo, sem sucesso, pois
o anormal resistia sempre e por isso vivia só
perante dedos espetados acusadores.

Mas o anormal também sentia o palpitar da vida em si,
também sentia o coração cheio no vazio
e nas ausências de toques e afectos
e o seu Amor era a sua loucura
mas ser louco era a única sanidade que lhe restava
e resistindo ao abismo amava muito,
amava tanto, amava só,
como se o seu Amor o agarrasse à vida
e não desistia:
agarrava-se a esse Amor
como um pequeno ramo em marés-vivas.

O anormal era doido varrido
porque amava incondicionalmente
as árvores e o céu e os frutos
e o teu cheiro a Primavera
e a memória de ti
desatava-lhe o colete de forças social
que o abafa e denomina.

O anormal era doido e partiu louco,
houve quem o visse, dizem, abraçado
a 180 aves que lhe falavam de ti.

Epitáfio de um louco