Carta simples II

   

Hoje esperei por sinais de ti.

Ficou-me na boca o travo dos cigarros

e no corpo o resquício arrepiado da tua ausência.

Alguns amigos vieram ver-me, desejar-me bom ano.

(sabes que esta casa às vezes parece um hotel)

Ofereceram-me livros, discos e garrafas e eu quis saber de ti,

mas fiquei calado, pelas razões óbvias.
Não te darei a prenda que te comprei,
está ali num sítio que ninguém veja.

Não sei que parte do meu olfacto te respira ainda nestes poros

mas tenho o teu cheiro entranhado em mim,

no meu pescoço, na minha face, nos meus dedos,

o teu calor, o teu cabelo, o teu fechar de olhos

quando encostavas a tua cara à minha

e me dizias em silêncio que me querias.

Lembra-te que eu já vi onde a chuva acaba

e quando não houver futuro é para lá que irei

ao colo da aves que me visitam de vez em quando,

pintar paredes de branco e falar virado às plantas

e porque não até chorar bastante por saber que te perdi,

talvez até te esqueça ou me esqueça que te amo

se o mundo me cair com força na cabeça

e me causar lesões no hipocampo.

Tenho tido dores de estômago horríveis.

As minhas telas são um caos.

Todos me amam, mas já ninguém me atura

e não sei o que fazer às mãos a maior parte do dia,

como se quisesse à força afastar o tempo que

como um cancro me come as entranhas

e preenche os espaços que não ocupas.