Carta simples

 

Hoje quis escrever-te e não consegui.

Pesam-me os verbos como pedras

nestes dedos, mas vês,

é sobre ti que se debruçam as palavras

que não saem

e nestes olhos a gratidão

de saberes sempre quando preciso da tua mão

na face, quase materna, quase amante,

e azuis os rasgos de ternura

de uns olhos castanhos e

meigos

que me libertam das águas revoltas

onde lutam os meus neurónios

em batalhas estéreis e sem sentido.

Tens sido tu o porto de abrigo

que me recolhe nas paisagens desse País

que escondes no teu corpo e no teu nome

e me dá uma paz profunda

e me asseguras na minha infantil insegurança

que o passaporte que assinaste para eu aí viver

é vitalício e sem encargos,

esse País tão infinito onde me quero nacionalizar

e ter asilo.

Se conseguisse, hoje tentaria explicar-te

que as razões da minha insegurança

vêm do facto de que quando me multiplico

nos jardins que escolho com cuidado

a água desaparece sem razão

correndo aos poucos para outros rios,

desidratando-me os afectos.

Sou inseguro e insistente

devido à inevitabilidade de que perpetuarás

esse ciclo, e que tenhas medo e fujas

e ergas muros que ficarei a contemplar

com os meus olhos tristes

que te dizem tanto sem dizerem nada,

excepto não tenhas medo,

não fujas,

não vás,

não sejas um rio

onde estas raízes não bebam.