Auto-retrato

Sou vaidoso sem ser peneirento

sou saudosista e pessimista

sem nunca ser miserabilista

embora bastantes vezes me sinta

miserável.

Sou decadentista sem ser ainda totalmente decadente

tendo já declarado oficialmente

a decadência do meu corpo

quando encontrei um pêlo a nascer-me numa orelha,

declaração essa acompanhada de um berro

em horror que fez a vizinhança trancar as portas

e, segundo dizem, soar algumas sirenes da

corporação de bombeiros mais próxima.

Retiro esse pêlo periodicamente
com a precisão cirúrigica de uma pinça!
Tenho dias em que me acho bonito,
são bons dias, mas raros.

Sou rogerwatersiano e beethoveniano

mas às vezes ouço Abba às escondidas

facto que alguns amigos dizem ser bastante gay.

Dizem que estou a ficar louco.

Falo sozinho a fazer a barba

e recebo visitas sazonais de aves azuis.

Passei a vida como um homem de esquerda a

pensar que era de direita

mas com Che no coração.

Amo loucamente quando amo.

Recuso que me amem loucamente quando não amo.

Sou irritável, irascível, arrogante,

não pedante, às vezes irritante,

mas um doce, carinhoso, amigo dos amigos,

bom amante,

recluso no meu espaço,

interno e externo e por vezes

deprimido, deprimente,

ausente,

e com graves problemas de memória

ao ponto de ficar a olhar feito estúpido

para as prateleiras da despensa

a pensar “eu vinha aqui buscar qualquer coisa”.

Preciso que me tratem do seguro do carro

e que o levem à revisão. Comigo tem de ser

tudo débito em conta.

Não sei quanto ganho exactamente.

Andei 6 meses com os suportes do motor partidos,

ao que o meu mecânico me disse

fuuuoda-se bócê é, é um gaijo de sorte, carailho!

Amo os meus filhos mais que tudo neste mundo.

Amo as plantas e o musgo

e o mar e os teus olhos

quase de maneira igual.

Dizem que estou a ficar louco.

Este é o meu auto-retrato de hoje,

ficando na dúvida se será o mesmo de amanhã.

Por Toutatis!
Devia ter nascido com um USB no cu

para fazer updates regulares
aos drivers dos meus neurónios.