"De repente fecha-se tudo sobre
o corpo
e começo a correr à pressa para o carro
encolhendo-me e arfando como um animal
encurralado e 1000 imagens em catadupa
rodopiam com as ruas e as pessoas indefinidas
estranhas, desconhecidas, não notando
os olhos tontos passam sem notar
que o mundo sem aviso desabou.
Deixo cair tudo para o chão
e digo a correr olá a um vizinho nas escadas
que balbucia qualquer coisa
que não ouço enquanto galgo 6 degraus de cada vez
para chegar à minha porta que tranco à bruta
para depois reparar que a casa acalma-me
o coração que quer à força sair-me pela garganta,
esta garganta sem voz, toda entupida
em soluços ridículos e impróprios
porque sei que está vazia e o carrossel vai parando
lentamente para me encontrar a alma
junto a um canto a olhar para mim
a implorar a minha própria compreensão
sobre o impacto que sem aviso me transforma
nessa coisa estranha, invertebrada,
tentando à força recompor-se de si mesma,
sem segurança e com esperança de que parte do teu mundo
lhe entre por uma qualquer frincha desta porta."