Hoje vivi um pouco mais
e reconheci algumas cores
na paisagem que habitamos.
Hoje as cigarras cantavam ao longe
(eu ouvi-as, tu não te apercebeste)
e um pássaro que me ficou debaixo do carro
sobreviveu ileso,
pelo seu tamanho entre quatro rodas
ser reduzido como os tons da
ponte que nos une entre o abismo.
Sobrevivemos pouco a pouco
aos carros que nos atropelam,
quando caímos dançando
em qualquer estrada
e eu vivo um pouco mais
nesse estremecer que minimizas,
em palavras e actos,
mas reconheço em nós algumas cores,
o cinzento, o preto e o branco
e ao longe, quem sabe, algum lilás
por entre o negro.

